Quando passo hoje pela Avenida Japão logo após o hospital Santana, entre o vaivém de carros e a sucessão de muros e comércios variados, me vêm à imaginação as cores e texturas que repousam sob os prédios atuais e seus pavimentados quintais. Ao final da década de 1960, quando por ali morei, a avenida não era sequer asfaltada e o Alto Ipiranga e mais além o Alto dos Guaianazes era um território geológico particular, uma "ilha" de terra que parecia ignorar as regras da Mata Atlântica úmida que domina Mogi.
Minha
memória mais nítida não é a dos vastos terrenos vazios e cobertos de capim em
torno da avenida, mas do chão, que era um desafio aos sentidos. Por cima, uma
fina pele de terra marrom e seca; por baixo, uma massa de argila vermelha, roxa
e amarela densa e compacta, entrecortada por veios de uma brancura de porcelana.
Terra propícia para esculpir pequenos mundos com cavernas, casas e fortes inspirados
nos westerns de então, onde soldadinhos
e figuras de cowboys e índios travavam batalhas infindas. E separando as duas
camadas, uma faixa de pedrinhas ferruginosas, a canga, o cascalho escuro que
denunciava que ali, no Alto Ipiranga, a natureza tinha decidido manter vivo um
pedaço do cerrado, muito antes dos índios Guaianazes pisarem por aquelas
bandas.
Naqueles
tempos em que a escola nos ensinava geografia em detalhes, eu identificava
aquele solo como um campo rupestre. Era
o reino da mata rasteira, das moitas de mamona
impenetráveis e dos pés espinhosos de joá
bravo com seus frutos vermelhos e que eu nem sabia que eram venenosos. Aqui
e ali surgiam os pés de jurubeba, teimosos e rústicos com seus frutinhos
amargos. E uma planta, cujo nome já se perdeu, mas que me oferecia hastes
longas, retas e leves que eu teimava em usar como material para flechas
ineficientes. Que planta era
aquela? Não faço ideia! Talvez algum botânico do grupo a conheça.
Mal
sabia eu, na minha infância de joelhos sujos, que a terra em que eu brincava
tinha nome científico - saprólito
– formado pela decomposição de rocha gnáissica por incontáveis milênios e que
aqueles veios brancos eram de valioso caulim,
o feldspato transformado pela chuva e pelo tempo, revelando que ali naquele
alto de colina, a rocha estava se entregando à terra.
Hoje,
essas memórias habitam apenas um recorte da lembrança. O caulim foi coberto
pelo cimento, e as frágeis hastes de fazer flecha deram lugar aos muros e
calçadas. Mas, para quem viveu ali naqueles tempos doces, o Alto do Ipiranga e
mais além o Alto dos bravos Guaianazes continua sendo aquele lugar empoeirado onde
a terra era pintada de branco e vermelho, onde a infância tinha o cheiro seco
do mato, o cascalho ferruginoso estragava os sapatos, a roupa vivia suja de
barro colorido, e não havia trégua para as estilingadas de mamonas contra a
turma da rua de baixo.
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