O nome "Gran Circo" exprime bem a maneira como penso.
Aparentemente caótico, mas muito planejado, às vezes irônico mas sobretudo divertido.
Não esperem só palhaçadas.
Críticas e manifestações humanas em geral terão lugar garantido no picadeiro.

Agora vamos ver como os domadores e palhaços que moram entre as minhas orelhas irão se comportar!



30 março 2026

O Reino de Ferro e Porcelana: O Alto Ipiranga da minha infância

 Quando passo hoje pela Avenida Japão logo após o hospital Santana, entre o vaivém de carros e a sucessão de muros e comércios variados, me vêm à imaginação as cores e texturas que repousam sob os prédios atuais e seus pavimentados quintais. Ao final da década de 1960, quando por ali morei, a avenida não era sequer asfaltada e o Alto Ipiranga e mais além o Alto dos Guaianazes era um território geológico particular, uma "ilha" de terra que parecia ignorar as regras da Mata Atlântica úmida que domina Mogi.

Minha memória mais nítida não é a dos vastos terrenos vazios e cobertos de capim em torno da avenida, mas do chão, que era um desafio aos sentidos. Por cima, uma fina pele de terra marrom e seca; por baixo, uma massa de argila vermelha, roxa e amarela densa e compacta, entrecortada por veios de uma brancura de porcelana. Terra propícia para esculpir pequenos mundos com cavernas, casas e fortes inspirados nos westerns de então, onde soldadinhos e figuras de cowboys e índios travavam batalhas infindas. E separando as duas camadas, uma faixa de pedrinhas ferruginosas, a canga, o cascalho escuro que denunciava que ali, no Alto Ipiranga, a natureza tinha decidido manter vivo um pedaço do cerrado, muito antes dos índios Guaianazes pisarem por aquelas bandas.

Naqueles tempos em que a escola nos ensinava geografia em detalhes, eu identificava aquele solo como um campo rupestre.  Era o reino da mata rasteira, das moitas de mamona impenetráveis e dos pés espinhosos de joá bravo com seus frutos vermelhos e que eu nem sabia que eram venenosos. Aqui e ali surgiam os pés de jurubeba, teimosos e rústicos com seus frutinhos amargos. E uma planta, cujo nome já se perdeu, mas que me oferecia hastes longas, retas e leves que eu teimava em usar como material para flechas ineficientes.  Que planta era aquela?  Não faço ideia!  Talvez algum botânico do grupo a conheça.

Mal sabia eu, na minha infância de joelhos sujos, que a terra em que eu brincava tinha nome científico - saprólito – formado pela decomposição de rocha gnáissica por incontáveis milênios e que aqueles veios brancos eram de valioso caulim, o feldspato transformado pela chuva e pelo tempo, revelando que ali naquele alto de colina, a rocha estava se entregando à terra.

Hoje, essas memórias habitam apenas um recorte da lembrança. O caulim foi coberto pelo cimento, e as frágeis hastes de fazer flecha deram lugar aos muros e calçadas. Mas, para quem viveu ali naqueles tempos doces, o Alto do Ipiranga e mais além o Alto dos bravos Guaianazes continua sendo aquele lugar empoeirado onde a terra era pintada de branco e vermelho, onde a infância tinha o cheiro seco do mato, o cascalho ferruginoso estragava os sapatos, a roupa vivia suja de barro colorido, e não havia trégua para as estilingadas de mamonas contra a turma da rua de baixo.

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